O almoço que reuniu o primo Zé Costa, os filhos, o genro, a nora e os netos foi, de facto, uma alegria. Todos estavam bem dispostos, faladores, animados. Entre o primeiro e o segundo prato, o primo já afastava um pouco a cadeira da mesa, distendia ligeiramente as pernas e repetia, batendo ao de leve com a mão na coxa forte: «Sinto-me um homem novo!». E divagava, um sorriso bonacheirão e satisfeito a entreabrir-se no rosto bem barbeado: «Eu e o Amílcar sempre fomos mais do que primos, éramos quase irmãos. Fomos criados praticamente juntos, em casa da avó, crescemos um com o outro... Os conselhos que ele me dava quando eu era aquele valdevinos que a Antónia talvez ainda se lembre... Era uma jóia de pessoa, o meu primo Amílcar!...»
O vinho cantava da garrafa para os copos. E Zé Costa não parava de falar: «Por isso é que eu me sinto hoje tão feliz, sinto-me em família, aqui com todos vocês... E, olhem, eu até começava a sentir-me um pouco sozinho cá em Portugal. Sabem como é, os anos passam, as pessoas abalam cada uma para seu lado, os amigos deixam de se ver. Mas hoje sinto-me um homem novo!»
Voltavam a esvaziar-se garrafas, enchiam-se copos, levantados com mãos já trémulas em saúdes e brindes. E Zé Costa batia de novo com a mão na coxa: «Sinto-me um homem novo, um homem novo!»
E Antónia sentia-se também uma nova mulher. Foi talvez do calor envolvente do almoço, ou do facto de estar ali, à mesa, sentada ao lado de Zé Costa, ou talvez ainda daquela quase ternura protectora que adivinhava na voz dele - se a prima Antónia sempre quiser ir para as termas de cima, podem ficar todos descansados, eu encarrego-me de que nada lhe falte... - que aquela ideia se insinuou nela. E se voltasse a casar? A casar com Zé Costa? Pois não era verdade que muita gente casava com sessenta e tais, setenta e até mais anos? E ela, afinal, ainda ia entrar na casa dos sessenta...
No final do almoço, o primo fez questão que fossem todos visitar o terreno que tinha comprado junto ao mar. «É apenas um passeiozinho, em menos de meia-hora nos pomos lá», dizia Zé Costa, logo acrescentando, palrador e afogueado: «Aliás, gostava de vos pedir uns conselhos. Sabem, estou com ideias de construir lá uma casinha, uma casinha bem portuguesa, nada dessas modernices estapafúrdias que os emigrantes tanto gostam de arranjar. Mas queria uma coisa bem feita, com todos os preceitos e confortos. Ando para aqui sem conhecer ninguém, lembrei-me que talvez os primos, que são mais jovens, modernos e com mais instrução que eu, me pudessem dar uns conselhos, indicar alguém com qualidade para eu entregar o projecto, a ver se eu não sou para aí enganado com algum construtor troca tintas.»
O mar era um imenso espelho de prata onde o sol se via em corpo inteiro. Zé costa avançava à frente, calcando com os pés a colcha verde e amarela das azedas em flor que atapetavam o terreno. Logo atrás, o filho e o genro deitavam olhos avaliadores e faziam perguntas. Os netos cabriolavam à vontade, cabritos saltitantes e azougados, entre risos e correrias. E Antónia, ao lado da filha e da nora, os olhos sorridentes e o nariz levantado numa inspiração profunda: «Que maravilha, este aroma a mar!»
«Uma grande varanda aqui, virada para o sol e o mar, para nos podermos sentar à tarde...». A voz de Zé Costa - de pé, no meio do terreno, a camisa um pouco desabotoada e os braços abertos, alto e forte como um Deus - chegava-lhe quente, palpitante de vida. E Antónia via-se recostada numa cadeira, debaixo de um chapéu de sol, a tricotar umas camisolitas para os netos; ou para os netos de Zé Costa, os “alemanitos”, como ele dizia, quando os viessem visitar nas férias de Verão. Ou então lá abaixo, a passearem os dois, de braço dado, na branca areia da praia bordejada pela água espumosa de ondas calmas.
(continua)
anamar - 1989
Publicado por vmar em fevereiro 5, 2004 08:05 PM